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domingo, 18 de março de 2018

Cinismo


Odeio os cínicos. Muitos foram ou são meus amigos, e assim, é por amor que os odeio. Presenciei os seus hábitos, o ciclo vicioso que perpetuam, de criticarem a sociedade, a democracia, o mundo, e todo o que é importante de uma forma tão leviana como se o “café da manhã” se tratasse, apenas para serem eles os autores da denuncia; ou então, para que, ao exprimirem os argumentos que levam à sua descrença, estes sejam validados pelos outros, e de alguma forma o delator seja compreendido e considerado. Atenção, também eu estimo alguém que abertamente expõe problemas que a todos afetam, demonstrando inteligência e perspicácia, no entanto repugna-me imensamente quando o fazem de uma forma tão vulgar SEM NUNCA, em tempo algum, tomarem uma pequena ação que seja para resolverem o problema.    
Ouço o que eles me dizem com ecos de dor, e no conjunto das suas conjeturas pessimistas pressinto insignificância e frustração por acharem que não conseguem mudar nada. Será que se conhecem? Será que conhecem realmente o mundo? Ou sou eu que estou enganado, e a única coisa que podemos realmente fazer é espalhar a critica, vangloriarmo-nos da nossa descrença, e arranjar desculpas?     
E assim, acabar por me tornar alguém que: critica, mas não vota; critica, mas não é camarada e não faz parte ou apoia qualquer reforma ou revolução; critica, mas não luta pelo mundo melhor, nem que seja pela geração seguinte.
Eu sou um lutador, no combate me valorizo e glorifico, e sem conhecer outra maneira de agir e de me amar, com todas as forças, me recuso a cair perante esta mão invisível, poderosa e omnipotente, de que me falam, que nos torna descrentes e nos desmotiva na luta contra os problemas do sistema e da sociedade. E na minha decisão, abraço todas as consequências que poderão advir.

sábado, 28 de outubro de 2017

Melhores amigos 2/2

Chegou a hora de falar sobre a CG. Não existe palavras ou forma que, com a exatidão que é exigida a algo tão relevante, conseguiam quantificar ou definir o quanto a sua amizade enriquece e eleva a minha vida. E claro, como em todas as relações que temos, a origem de toda esta importância está na empatia que temos um pelo outro. É fácil olhar para ela, estar com ela, falar com ela, com ou sem palavras. Olhares, sorrisos, expressões não tão claras assim, entendo-as todas ou quase todas, pois no final de contas, é como se estivesse a olhar para o meu próprio reflexo a maior parte do tempo. Partilhamos muitos ideais e gostos, temos tendência para valorizar e desprezar as mesmas pessoas, pois até nas qualidades e princípios que apreciamos e procuramos nos outros existe consenso. Com ela sou sempre genuinamente ridículo, descarado e inesperado, pois ela em vez de me criticar ri-se como se fosse uma criança. Acho orgulhosamente que represento para ela honestidade, lealdade e sagacidade.
No entanto, se existe dia tem que existir noite. E na complexidade daquilo que eu sou e daquilo que és, apesar de tanta cumplicidade, acredito solenemente que no fundo somos criaturas diferentes e isso muitas vezes mostrou-se em discussões e desacordos.
Como disse, talvez não consiga definir o quanto a tua amizade representa para mim, mas tenho a certeza que uma das coisas que a torna tão valiosa é esta mesma diferença no meio de tantas semelhanças. É que, não me parece que travar conhecimento com uma pessoa demasiada parecida comigo traga grandes vantagens. Se não puserem em causa aquilo que sou com pontos de vista diferentes como ei-de crescer? Como poderei formar equipa com alguém que tens as mesmas virtudes que eu? …
Assim, o quer que aconteça daqui para a frente, para mim, seremos sempre binómios.
Para a CG, do óbvio amigo João.

sábado, 23 de setembro de 2017

Melhores amigos 1/2

Ricardo AAAAAAA és o meu melhor amigo. Falei uma vez com a melhor amiga, numa conversa cínica durante uma das minhas crises existências da adolescência, sobre que motivação é que ela encontrava para continuar a viver a vida. E ela disse-me, inspirada, que ainda achava que ia fazer qualquer coisa de extraordinário como não morrer em vão, morrer com honra, para salvar outra pessoa. Eu entendi o que ela quis dizer. E eu nunca gosto de dizer coisas tão sérias e significativas como estás sem antes ter a certeza absoluta que era capaz de as cumprir, mas seria uma honra para mim morrer, se isso significasse que continuarias a viver. Pois, tu deves entender, para mim e pela nossa diferença de idades eu vejo-te muitas vezes como o meu protegido que tem muito para apreender mas que, no entanto, tem todas as virtudes que me faltaram e que não me permitiram ser mais feliz nesta vida. Eu sofro quanto tu sofres meu irmão não duvides disso, e estou alegre quanto tu estás.

Tu fazes macacadas e expões-te em figuras ridículas e os outros riem-se, uns genuinamente e sem te julgar agradecendo até pelo bom momento que crias e outros com maldade, criticando-te pelo teu à vontade. Mas digo-te, com toda a certeza, que duma maneira ou de outra és melhor que todos eles, nunca conheci alguém tão genuíno e cheio de virtudes relativamente às amizades que mantem como tu. Devo-te dizer, que desejo profundamente que continuemos a ser tão amigos como somos agora e tu, muitas vezes me dizes: “Nós vamos ser assim até sermos velhos” e eu, cínico como sou (desculpa) vou fazer tudo o que puder para que se mantenha assim e façamos o improvável, mantermo-nos amigos até ser velhos…

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relatório de Vida, Parte 1

Embrigado de alegria escrevo….
A vida é fácil se se luta por ela, se nos conhecêssemos e se a conhecemos. Quanto mais o tempo passa mais a vida se me revela, e mais me adapto a ela vergando-me humildemente à sua vontade indomável. Sei sofrer, e sei aproveitar os momentos bons. E saber sofrer é mais importante na vida prática do que saber aproveitar a vida boémia.

 Depressa a minha personalidade se altera esculpida pelos apanágios dessa minha realidade, e já não sou o mesmo João! Note na minha pessoa mais uma mudança de alma do que propriamente a mudança física previsível e esperada. Sempre olhei para mim com um olhar de sofrido orgulho por ser distinto, diferente, e por essa razão sempre acreditei que a minha metamorfose na vida adulta e na necessidade de ganhar dinheiro e sobreviver fosse também ela, distinta e diferente. Contudo não foi. Acabei por adaptar e colocar como meus, comportamentos que havia visto nos mais velhos e que observava que funcionavam, relacionando-se com uma vida feliz e saudável. De resto, passei a olhar muito humildemente os mais velhos, uma vez que a sua experiência de vida – às vezes o dobro da minha – lhes permite saber realmente qual é o comportamento mais indicado nos vários momentos da vida. 

(...)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Anna Karénina

Anna Karénina
“Essa primeira querela deu-se porque Lévin se deslocou à nova granja e demorou mais meia hora do que esperava, porque quis passar pelo caminho mais curto e se perdeu. Ao voltar para casa só pensava nela, no amor dela, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava mais se inflamava nele a ternura por ela. Entrou a correr no quarto com o mesmo sentimento, ainda mais forte, com que chegou a casa dos Scherbátski para fazer o pedido de casamento. E de repente foi recebido com uma expressão sombria como nunca vira nela. Quis beijá-la, mas ela rejeitou-o.
-Que tens tu?
- Estás muito alegre…-começou ela, desejando ser calma e venenosa.
Mas assim que abriu a boca, logo as palavras de censura ditadas por um ciúme insensato, tudo aquilo que a atormentava durante aquela meia hora que passara imóvel sentada à janela, lhe escaparam. Só então ele compreendeu claramente, pela primeira vez, aquilo que não compreendia quando, depois do casamento, a conduzia para fora da igreja. Compreendeu não apenas que lhe era muito próxima, mas também que agora não sabia onde acabava ela e começava ele. Compreendeu isso pelo doloroso sentimento de divisão que experimentou naquele momento. No primeiro instante teve o sentimento de um homem que, recebendo um forte golpe nas costas, se vira com enfado e um desejo de vingança para descobrir o culpado, e se convencer de que foi ele próprio por descuido, que não tem com quem se zangar e deve suportar e aliviar a dor.”

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Quebra Sabores (Fernando Pessoa O Livro do Desassossego)

162.

Tudo quanto desagradável nos sucede na vida – figura ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes – deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
   Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Daí Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos – não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que recusa a confrontos.


239.

Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.
Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, seja que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exata como foi exposto, a posição da beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.


295.

O dinheiro é belo, porque é uma libertação.
Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro.
Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam – compram pequenos sonhos. São crianças no adquirir. Todos os pequenos objetos inúteis cujo acenar ao saberem que têm dinheiro os faz comprá-los, possuem-os na atitude feliz de uma criança que apanha conchinhas na praia – imagem que mais do que nenhuma dá toda a felicidade possível. Apanha conchas na praia! Nunca há duas iguais para a criança. Adormece com as duas mais bonitas na mão, e quando lhas perdem ou tiram – o crime! Roubar-lhe bocados exteriores da alma! Arrancar-lhe pedaços de sonho! – chora como um Deus a quem roubassem um universo recém-criado.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Jantar: Primeiro Prato

Os outros nada! Os outros nada! Não dizem nada, não valem nada…Cada um de nós é um, e na ténue comunicação pela linguagem muito se perde e todo é interpretado pela individualidade consciente de cada um. Já vivi na profundidade do abismo mais fundo e mais escuro e no agora, tal como na altura, jamais poderei explicar alguém o que senti na tenebrosidade daquele momento, e jamais alguém poderá realmente entender. E mesmo que tentasse fazê-lo talvez pudesse despertar no outro uma vaga emoção de mágoa, nada comparada com a que senti, que se dissiparia instantaneamente tal e qual como surgiu.
Sabes o que é morrer? Não morremos só quando o coração para de bater, sabias! Já carregaste para a cama um medo esmagador de morrer mas principalmente de viver, já? Alguma vez?!   

E nesta impossibilidade da autoexpressão completa e plena, e da necessidade de transmitirmos ao outro o que nos vai realmente na alma nutre a perceção da individualidade. Eu e apenas eu, e mais ninguém sabe. 
Todos se adaptam vivendo entre o mundo interior e exterior. Despertados pelo egoísmo e mal do mundo apreendemos a esconder-nos, a defendermos o conhecimento de nós próprios do outro. E pela força do que é autêntico e verdadeiro, pensamos por nós, vivemos para nós, lutamos, no compasso da vida à medida que esta se escreve sem esperar. Nos intervalos de tempo coexistimos e partilhamos com o outro (amigos) o que é possível partilhar, e em certo grau sentimo-nos compreendidos.

No entanto, por trás das grades da individualidade encaramos serenos e tranquilos o outro, sabendo que um dia, a qualquer hora, poderemos ter que cuspir corajosamente “não, eu não sou assim; eu não percebo porque é que queres ir por aí, eu não vou por aí” em nome da grandeza emotiva de nós próprios (orgulho) e da nossa verdade. Uns compreenderão, outros não, de qualquer maneira, temo, acabaremos na separação.