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sábado, 23 de setembro de 2017

Melhores amigos

Ricardo AAAAAAA és o meu melhor amigo. Falei uma vez com a melhor amiga, numa conversa cínica durante uma das minhas crises existências da adolescência, sobre que motivação é que ela encontrava para continuar a viver a vida. E ela disse-me, inspirada, que ainda achava que ia fazer qualquer coisa de extraordinário como não morrer em vão, morrer com honra, para salvar outra pessoa. Eu entendi o que ela quis dizer. E eu nunca gosto de dizer coisas tão sérias e significativas como estás sem antes ter a certeza absoluta que era capaz de as cumprir, mas seria uma honra para mim morrer, se isso significasse que continuarias a viver. Pois, tu deves entender, para mim e pela nossa diferença de idades eu vejo-te muitas vezes como o meu protegido que tem muito para apreender mas que, no entanto, tem todas as virtudes que me faltaram e que não me permitiram ser mais feliz nesta vida. Eu sofro quanto tu sofres meu irmão não duvides disso, e estou alegre quanto tu estás.

Tu fazes macacadas e expões-te em figuras ridículas e os outros riem-se, uns genuinamente e sem te julgar agradecendo até pelo bom momento que crias e outros com maldade, criticando-te pelo teu à vontade. Mas digo-te, com toda a certeza, que duma maneira ou de outra és melhor que todos eles, nunca conheci alguém tão genuíno e cheio de virtudes relativamente às amizades que mantem como tu. Devo-te dizer, que desejo profundamente que continuemos a ser tão amigos como somos agora e tu, muitas vezes me dizes: “Nós vamos ser assim até sermos velhos” e eu, cínico como sou (desculpa) vou fazer tudo o que puder para que se mantenha assim e façamos o improvável, mantermo-nos amigos até ser velhos…

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relatório de Vida, Parte 1

Embrigado de alegria escrevo….
A vida é fácil se se luta por ela, se nos conhecêssemos e se a conhecemos. Quanto mais o tempo passa mais a vida se me revela, e mais me adapto a ela vergando-me humildemente à sua vontade indomável. Sei sofrer, e sei aproveitar os momentos bons. E saber sofrer é mais importante na vida prática do que saber aproveitar a vida boémia.

 Depressa a minha personalidade se altera esculpida pelos apanágios dessa minha realidade, e já não sou o mesmo João! Note na minha pessoa mais uma mudança de alma do que propriamente a mudança física previsível e esperada. Sempre olhei para mim com um olhar de sofrido orgulho por ser distinto, diferente, e por essa razão sempre acreditei que a minha metamorfose na vida adulta e na necessidade de ganhar dinheiro e sobreviver fosse também ela, distinta e diferente. Contudo não foi. Acabei por adaptar e colocar como meus, comportamentos que havia visto nos mais velhos e que observava que funcionavam, relacionando-se com uma vida feliz e saudável. De resto, passei a olhar muito humildemente os mais velhos, uma vez que a sua experiência de vida – às vezes o dobro da minha – lhes permite saber realmente qual é o comportamento mais indicado nos vários momentos da vida. 

(...)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Anna Karénina

Anna Karénina
“Essa primeira querela deu-se porque Lévin se deslocou à nova granja e demorou mais meia hora do que esperava, porque quis passar pelo caminho mais curto e se perdeu. Ao voltar para casa só pensava nela, no amor dela, na sua felicidade, e quanto mais se aproximava mais se inflamava nele a ternura por ela. Entrou a correr no quarto com o mesmo sentimento, ainda mais forte, com que chegou a casa dos Scherbátski para fazer o pedido de casamento. E de repente foi recebido com uma expressão sombria como nunca vira nela. Quis beijá-la, mas ela rejeitou-o.
-Que tens tu?
- Estás muito alegre…-começou ela, desejando ser calma e venenosa.
Mas assim que abriu a boca, logo as palavras de censura ditadas por um ciúme insensato, tudo aquilo que a atormentava durante aquela meia hora que passara imóvel sentada à janela, lhe escaparam. Só então ele compreendeu claramente, pela primeira vez, aquilo que não compreendia quando, depois do casamento, a conduzia para fora da igreja. Compreendeu não apenas que lhe era muito próxima, mas também que agora não sabia onde acabava ela e começava ele. Compreendeu isso pelo doloroso sentimento de divisão que experimentou naquele momento. No primeiro instante teve o sentimento de um homem que, recebendo um forte golpe nas costas, se vira com enfado e um desejo de vingança para descobrir o culpado, e se convencer de que foi ele próprio por descuido, que não tem com quem se zangar e deve suportar e aliviar a dor.”

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Quebra Sabores (Fernando Pessoa O Livro do Desassossego)

162.

Tudo quanto desagradável nos sucede na vida – figura ridículas que fazemos, maus gestos que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes – deve ser considerado como meros acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em nós.
   Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o contrário de nós e por isso o nosso inimigo.
Daí Horácio, falando do varão justo, que ficaria impávido ainda que em torno dele ruísse o mundo. A imagem é absurda, justo o seu sentido. Ainda que em torno de nós rua o que fingimos que somos, porque coexistimos, devemos ficar impávidos – não porque sejamos justos, mas porque somos nós, e sermos nós é nada ter que ver com essas coisas externas que ruem, ainda que ruam sobre o que para elas somos.
A vida deve ser, para os melhores, um sonho que recusa a confrontos.


239.

Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.
Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, seja que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exata como foi exposto, a posição da beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.


295.

O dinheiro é belo, porque é uma libertação.
Querer ir morrer a Pequim e não poder é das coisas que pesam sobre mim como a ideia dum cataclismo vindouro.
Os compradores de coisas inúteis sempre são mais sábios do que se julgam – compram pequenos sonhos. São crianças no adquirir. Todos os pequenos objetos inúteis cujo acenar ao saberem que têm dinheiro os faz comprá-los, possuem-os na atitude feliz de uma criança que apanha conchinhas na praia – imagem que mais do que nenhuma dá toda a felicidade possível. Apanha conchas na praia! Nunca há duas iguais para a criança. Adormece com as duas mais bonitas na mão, e quando lhas perdem ou tiram – o crime! Roubar-lhe bocados exteriores da alma! Arrancar-lhe pedaços de sonho! – chora como um Deus a quem roubassem um universo recém-criado.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Jantar: Primeiro Prato

Os outros nada! Os outros nada! Não dizem nada, não valem nada…Cada um de nós é um, e na ténue comunicação pela linguagem muito se perde e todo é interpretado pela individualidade consciente de cada um. Já vivi na profundidade do abismo mais fundo e mais escuro e no agora, tal como na altura, jamais poderei explicar alguém o que senti na tenebrosidade daquele momento, e jamais alguém poderá realmente entender. E mesmo que tentasse fazê-lo talvez pudesse despertar no outro uma vaga emoção de mágoa, nada comparada com a que senti, que se dissiparia instantaneamente tal e qual como surgiu.
Sabes o que é morrer? Não morremos só quando o coração para de bater, sabias! Já carregaste para a cama um medo esmagador de morrer mas principalmente de viver, já? Alguma vez?!   

E nesta impossibilidade da autoexpressão completa e plena, e da necessidade de transmitirmos ao outro o que nos vai realmente na alma nutre a perceção da individualidade. Eu e apenas eu, e mais ninguém sabe. 
Todos se adaptam vivendo entre o mundo interior e exterior. Despertados pelo egoísmo e mal do mundo apreendemos a esconder-nos, a defendermos o conhecimento de nós próprios do outro. E pela força do que é autêntico e verdadeiro, pensamos por nós, vivemos para nós, lutamos, no compasso da vida à medida que esta se escreve sem esperar. Nos intervalos de tempo coexistimos e partilhamos com o outro (amigos) o que é possível partilhar, e em certo grau sentimo-nos compreendidos.

No entanto, por trás das grades da individualidade encaramos serenos e tranquilos o outro, sabendo que um dia, a qualquer hora, poderemos ter que cuspir corajosamente “não, eu não sou assim; eu não percebo porque é que queres ir por aí, eu não vou por aí” em nome da grandeza emotiva de nós próprios (orgulho) e da nossa verdade. Uns compreenderão, outros não, de qualquer maneira, temo, acabaremos na separação.  

sexta-feira, 11 de março de 2016

Jantar: Aperitivo

FerTo seek the edge is not to seek death, it is merely the satiation of wonder. Not in the feeling of being engulfed by fear or a dismal plunder, but of peaking into another realm. Sometimes you have to be reminded you have a choice in which realm you desire to reside when you lose your way. Once you look, you know easily that to walk away is to continue to fight, and to stay, well, that is to die.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Connections



A minha rede de amigos e conhecidos expande-se à luz da minha capacidade incandescente de entender todos. Embora, concordar com eles em comportamentos ou ideais (p.ex) seja já uma outra história. O ser humano é lógico. Lógico é o seu raciocínio. E como para além do mais também eu sou um ser humano, que se conhece muito bem, tendo por isso uma boa referência para conhecer outros conhecendo-se bem a si, tudo se torna fácil.
Tudo se reestrutura em mim à medida que a minha obsessão absorve todas as horas dos meus dias. Uma obsessão que sinto através de uma necessidade imensa de conhecimento que transcende até a vontade de comer, e que se alimenta a si própria. Simplesmente porque me apraz saber tudo, conhecer tudo, fazer da maneira mais correta e mais digna de aprovação intelectual; especialmente quando de fato sou reconhecido. Como não poderei encher-me de orgulho e confiar plenamente no meu raciocínio e na minha capacidade de, por raciocínio indutivo, chegar às resoluções dos problemas que me apresentam? Quando todos os dias em ocasiões aleatórias em contexto, em simples conversas de amigos, consigo seguir um fio de raciocínio de forma mais rápida e ágil do que todos outros?
Folgo em ajudar os outros principalmente quando reconheço que eles jamais me poderão ajudar na mesma medida. Reconheço em mim a capacidade de ver num plano superior muitos assuntos e deteto que os outros não o conseguem e, tentando ser frio e realista, não deixo de me sentir algo especial. Apercebo-me duma dinâmica e duma disponibilidade mental para penetrar em assuntos completamente deslocados em relação à minha área de conhecimento e nunca me senti mais livre!
E isto é o que a minha obsessão me traz…..de bom. E aquilo que ela consome de mim?